Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Sem título aparente.


"A vida é feita de escolhas" - de fato é uma afirmação verdadeira. O delta da vida, ou seja, as ramificações dos caminhos é que formam a história, pouco importa a quantidade ou a qualidade delas, elas apenas existem e são invariavelmente obrigatórias.

Na plenitude branca da razão, que gera os fatos e transforma a vida, minutos de excitação transformam toda uma água doce cristalina em uma água negra poluída.

Não posso - diz um. Nem eu - diz dois - mas vamos. Relutante um responde que além de não poder, não quer; dois lhe indaga a coragem, a vontade de viver. Um rebate com a responsabilidade e o discernimento. Dois diz: concordo, excitação momentânea; um responde: mas... vamos?

Daqui em diante, onde minha consciência manda, minhas reações são todas fruto das minhas escolhas. Pestanejar pouco importa quando escolho o errado, erros tornam-se apenas fatos passados mal escolhidos que são reflexo da incapacidade de se questionar e agir da maneira dita correta. Posso mas não quero. Não consigo, mas quero. Não quero, mas faço. Quero e faço.

Quinta-feira, 26 de Março de 2009

Pior do que ser frígida


Sua frigidez era seu maior defeito.

Veio ao mundo na forma de ser humano, menina, mulher. Sofrida.
Estudou, trabalhou, casou. Casou-se com o primeiro, seu príncipe encantado.

Seus sorrisos nunca foram soltos, livres. Havia sempre uma amarra de rancor.
Doce de quebrar os dentes, pior que rapadura.

O doce frequentemente azedava, no sentido literal da palavra, e o ácido corria pelas veias criando sentimentos tão frios quanto o semblante.

Não gostava dos filhos; fazia o de praxe, pela tradição, pelo sentimento de mãe, mas gostar de fato, plenamente, nunca o fez. Não era culpa dela, sempre fora exposta a sentimentos superficiais, filha de pais que não possuíam nenhuma psicologia de criação, criaram mais uma.

A palidez que a fez chorar a primeira vez que viu a luz, fez todos os dias até sua morte. Não era fotofobia, medo, frio, insegurança... era apenas ira. Por terem-na tirado da placenta, quente e úmida e jogado-a na claridade da vida. Em nome do pai, do filho e do espírito santo, vá. Vire-se.

Ficou sozinha, amarga. Por acreditar na divindade, ficou presa e pagando os pecados até ter uma insuficiência renal e fechar os olhos, p'ra sempre.

A dama de vermelho


Branca, doce, esquizofrênica e solitária a senhorita do longo vestido vermelho aguardava silenciosa ao meu lado. Naquelas circunstâncias, em que o tempo faz questão de não passar, é que vemos como somos efêmeros em relação à razão. Imóveis nós éramos obrigados a aguardar, eram três horas da manhã.


Reparei detalhadamente na moça: pálida apresentava sinais de ansiedade entrelaçados com desespero e angustia; os cabelos ora foram arrumados, mas estavam agora à vontade; as pernas eram brancas, as veias saltavam à brancura da pele; os dedos dos pés encolhiam-se do leve frio; o vestido... ah o vestido, vermelho, vermelho vivo, combinando com o batom realçava a infelicidade aparente da moça; seus olhos pretos e caídos mostravam, além de todas as qualidades dadas a ela, um cansaço iminente. Havia nas unhas esmalte vermelho.


No relógio marcavam quatro horas da madrugada em ponto.


A jovem balbuciava, bocejava, pestanejava e tentava manter-se lúcida, guerreando contra o sono. Cruzava as pernas e mexia-se incessantemente, brincava com os contos que carregava na bolsa e corria os dedos por entre as mechas dos cabelos. Junto com os ponteiros que marcavam cinco horas chegava uma fina e gélida chuva.


O sono foi-se embora, agora o frio impiedoso a impedia de sentir qualquer outra coisa. O vento intensificava-se e ela já estava encolhida a bater os queixos; o branco da pele, que já era demasiado, estava agora aflorando como luz. Pobrezinha.


Junto com o bonde e o sino os ponteiros marcaram seis horas e vinte e cinco minutos da manhã. A Jovem correu para seu lugar e de dentro da locomotiva via os primeiros raios do sol no horizonte junto com a garoa, criando um arco-íris no breu do amanhecer. Sentei-me atrás dela e rumei à minha casa. Nunca mais depois desse dia tornei a vê-la.

Quinta-feira, 5 de Março de 2009

como uma onda.


Há males que vem pro bem! Quem nunca ouviu isso?! Quem nunca passou por isso!

Em meio a essa onda de calor, a essa quantidade excessiva de antibióticos, ao ócio degenerativo, a futilidade escrachada, eu estou tentando sobreviver! Que me sirva de álibi, pois tenho passado as tardes desse verão de dois mil e nove trancafiado nesse forno intitulado de apartamento e dele apenas passos e penas saem. Ao acaso quando preciso sair, limito-me a um roteiro pré-estabelecido e logo regresso ao aconchego insuportavelmente quente do lar. Hoje por acaso, foi um dia diferente: na janela a bombordo do carro, um ex morador de rua contou sua breve história de vida e sua superação pessoal. Há aqueles mais "grandes coisas" que provavelmente não liguem para história de um ex morador de rua, mas é com certeza muito mais difícil sair da sarjeta do que ingressar numa vida classe média. É contraditório, mas é fato! E foi refletindo sobre a superação daquele que eu resolvi pintar tudo de rosa e ver as coisas com os olhos cheios de lágrimas, que são uma máxima sentimental, são honestas e de graça... Foi com ele que eu descobri que mudar vem de dentro, que o de fora é só casca e que está por fora padece. No sol tropical, ou subtropical seja lá qual for o sol que está a nos assolar hoje, vagar pelas pavimentadas da vida não é mais a mesma coisa... óculos escuros e olhos abertos não são mais artigos de luxo, são necessidades.

E pra não deixar parte poética da vida de lado, nada melhor que uma Nova Bossa e um mergulho no Atlântico pra reconfortar e reavivar a alma. Nada melhor...
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Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

astigmatismo


Até os pequenos grãos de arroz, que sozinhos ostentam uma palidez digna de piedade, juntos enchem uma panela, matam a fome, são a base de uma alimentação saudável, geram empregos, dão de comer a quem não teria, movem a economia de um mercadinho, de uma cidade, de uma multinacional, de um país, do planeta... até o inerte e insípido arroz faz mais pelo mundo do que eu.

Palavras soltas numa linha tentam apresentar um sentido, uma lógica, mas só o que fazem é formar um coletivo de palavras. Na realidade de nada servem os murmúrios, as lamurias, os amores e os desamores se sou quem os digo. Reclamar a mim mesmo meus próprios problemas não os resolverá, reclamar ao próximo vai acrescentar-me um ponto de vista diferente, sob uma realidade diferente que talvez mude tudo que eu pensava, quando de verdade não deveria ter ouvido nada porque estaria errando com meu próprio consentimento, sem usar as ideias de ninguém, mas também seria pura hipocrisia dizer que todas as ideias que me veem à mente são minhas, as ideias são construídas no coletivo, sem raciocínios prévios eu não seria capaz de ver as coisas como as vejo agora. Ignorancia é uma dádiva. Não se questionar é a melhor resposta para qualquer problema, sem pergunta não há razão de existir uma resposta.

Não precisamos de um porquê esclarecedor para vivermos. O cérebro humano não convive com a dúvida, mas quando não se tem uma resposta lógica para um determinado problema, superamos isso. O porquê da vida é um deles, a resposta filosófica estende-se por livros enciclopédicos e mares e não tem uma resposta definitiva, o porquê prático diz "penso, logo existo" pois então posso fazê-lo. A nossa liberdade, a qual não tem um sentido. Os nossos amores, os quais não sabemos o que são. A nossa vida, que apenas passa...

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PS: nada do que eu digo tem fundamento cientifico e filosófico, eu falo o que quero, da forma que quero, quando quero.

o plural de arroz é arrozes e a plantação é um arrozal.

Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Sacos de batatas enumerados.


São apenas número e diagnóstico

Aqueles lá enfileirados, à espera da morte iminente apenas apelam para fé o que a razão esturricada não dá mais conta. Pobres seres que infectados, remendados, doentes, quebrados, abalados, desesperados, desamparados e cansados ensejam uma fraterna ajuda. O clima mórbido e inebriado de etanol materializa o inferno na terra, corredores infinitos e portas enfileiradas não levam ninguém a lugar algum, apenas ao interminável esperar. Relógios não se tem, pois o tempo no inferno passa muito mais lentamente do que na superfície, eles seriam inúteis.

Às grandes expectativas, fé. Ao amor, verdade. À compaixão, vergonha na cara.
Àqueles que involuntariamente necessitam esperar, desejo-lhes perseverança mais do que qualquer coisa. Àqueles que estão por morrer a esmo como se fossem sacos de batatas enumerados, desejo-lhos a morte, sim, a morte que irá livrá-los dessa tenebrosa realidade que por mais clara e límpida que me possa parecer, ainda é obscura e calada e deve ser enaltecida e transformada em passado.

Aos que participam inativos e pacíficos diante dessa realidade, minha piedade.

Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

rebels without a cause


À liberdade. Seja qualquer o sentido de liberdade.

Desapegado do racional, apenas sente. É sempre mais legal à tarde. À noite é tão clichê, fugir da luz por debaixo das cobertas ou então na penumbra da indecência. Sorrizinhos inocentes e amedrontados introduzem o ballet das confluências, que num dia do futuro será relembrado sob o mais inusitado comentário. Braços e pernas não sabem seus lugares, assim como todo resto, ninguém lhes disse que seria simples. As bocas ao longe tentam aproximar-se, mas a coação da reprovação faz com que o hesitar seja a melhor idéia. O pavor da rejeição os mantém fisicamente juntos, mas conscientemente separados. Como o fluxo d'um rio, a intermitência das ações continua, até que a exclamação de conforto e aconchego penetra-lhes os ouvidos e arrepia-lhes a alma. Gotas de suor misturam-se e colocam a culpa nos lençóis, que por sua vez não foram questionados sobre absorção. Não demora muito pra que tenham certeza que toda ação mecânica atinge a perfeição com a prática. O ditado que diz quando um não quer, dois não fazem, é uma inverdade sob o iminente tsunami que veio por finalizar a sessão, o amor desfez-se em fisiologia e o que era lindo, entorpeceu, mas por pouco tempo. A visão turva e deturpada dos fatos volta a se normalizar e o preto e branco tornam-se colorido novamente. Os olhos acanhados e apáticos, como de autistas que procuram o nada, não tem coragem de vidrar o alvo, um abraço de vitória finaliza solenemente o silogismo. Infelizmente são seres humanos e de peso na consciência sofrem, pois a sociedade ostenta um prego torto no que se diz respeito a moral e a ética, mas como todo ato mecanizado, a prática leva a perfeição.

Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Título:

Tem me salvado as tardes.
Sons desritmados e impopulares pulsam minhas veias e fazem meu coração funcionar. Minha mente, inquieta e dependente, só realiza sinapses de coisas que hajam você. O sabor de auto flagelar-se é realmente incrível quando descobre-se que o corpo é dependente de alguma coisa. Sempre acho um motivo pra alimentar minha insanidade e prolongá-la. Sempre há uma razão pra repensar as ações e arrepender-se depois. Sempre há um prisma da moral para regulamentar se o que eu faço é certo ou errado. A partir do primeiro erro consciente as coisas vão se facilitando, errar fica cada vez mais fácil, digo com conhecimento de causa. As desculpas ficam convincentes, as mãos não suam mais, dos olhos lágrimas não saem e a pior parte, não há mais sentimento de culpa. Erra-se plenamente, com prazer.

Apegar-se pra quê? Deveríamos ser unidades do saber, independentes das acepções alheias. Mas não somos, somos ligados, extremamente dependentes dos outros, e quando não podemos, começam-se os problemas. the world stood still. Conforme-se ou conforme-se.

Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

the cricket chirps


O conto do filho pródigo. Não me interessa agora, é uma história moralista que tenta manter os bons costumes... que definam-se bons costumes. É uma porcaria que tenta manter a ordem pelas vias de poder do cristianismo, com suas babozeiras velhas e ultrapassadas. Feche os olhos para as linhas rebuscadas e redundantes daquele livro de fábulas e contos sistematizados, que visam lhe cegar às verdades, e liberte-se das correntes que o prendem no chão, como um pobre ser que sente culpa por todos os seus atos.

Num mundo tão mudante e tão dinâmico, nossas percepções de certo e errado, intermitentes consigo mesmas, transformam-se repentinamente. O medo do incerto assola os fracos e desabriga os duvidosos, prosperam aqueles que seguem sangrando ou puxando o tapete alheio. Não temos tempo de pestanejar, muito menos de sentir alguma coisa por alguém.

Mude sua percepção, altere a visão, a cor dos olhos, dos cabelos, das unhas. Caia pelos cantos. Dance até a música acabar. Minta. Omita. Beba. Queime seus dólares para se aquecer. Morra de frio. Faça mais e mais amigos. Seja alguém na noite. Durma nas calçadas. Esqueça as chaves de casa. Bata o carro. Minta. Esqueça-se de tudo, lave o rosto, vista seu melhor terno e vá procurar emprego. Depois relembre-se de tudo, indiguine-se com sua caretisse e morra do coração por ter tomado viagra. No portão do paraíso, troque os crentes, o silêncio, o branco reluzente, as oliveiras e a chatice regrada e bem educada do Senhor, pela orgia mal organizada do território das festinhas do Lulu, onde há raves, libertinagem, tv's full hd e muito, muito entorpecente.


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Lucy in the Sky with Diamonds - Beatles [think about it]

Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

Olha-me nos olhos


Eles falam a verdade, sempre. Se há uma razão para olhar nos olhos, é a verdade que eles irão transmitir.
Ações e reações. Sabe-se pra onde olham, o que querem dizer, se sente-se medo. É pelos olhos que tudo começa, por eles que a luz refletida em imagem e atribuída a pré-conceitos mostra-nos a verdade, a nossa verdade. A noção que se tem das coisas, sai dos olhos. O belo e o feio. As cores e os amores vem todos dos olhos. É deles também que vem as lágrimas e as aflições, vem as afirmações: "prefiro nem ver". Se o amor é vermelho, a paz é branca e a morte preta, são dos olhos que elas saem. Tudo que está vivo tem olhos, alguns não tem a mesma percepção, mas há pra eles os olhos do coração, da raiva, da piedade e até os olhos da fome. Aqueles olhos que sorriem, que brilham, que choram, também são aqueles que enxergam. Nem sempre vê-se o que se quer ver, na maioria das vezes as luzes refletidas já estão prontas e não temos filtros suficientes para nos ausentarmos dessa imagem. Mas é com certeza deles que vem a felicidade. Da sensibilidade que os olhos dão, das verdades que os olham criam. Uma imagem vale mais do que mil palavras.

Digo-te a verdade olhando-te nos olhos. Essa verdade não se dissipou como na areia quando a água do mar homogeniza a diferença. Essa verdade é vista, mas é omitida. E dos meus olhos, que hão de negar pra sempre essa luz refletida, estará lá, sempre latente a vontade de te nos olhos olhar. Arrependa-se, tenha piedade, seja misericordioso. Seja você, porque eu serei eu e nós nunca mais seremos nós, contrariando a vontade e a verdade, contrariando a imagem que os olhos vêem. Somente em sonhos, onde os olhos físicos não podem ver, é que essa utópica verdade refletida faz algum sentido, desvincilhar-se da idéia de pródigo amor não é tarefa pros que amam, somente pros que dizem que amam. Mas de que adianta dizer que ama, se é dos olhos que sai o amor?!
Olha-me nos olhos, são azuis.

Domingo, 30 de Novembro de 2008

love it or leave it.


Todos merecemos um anjo da guarda, um carma, um demônio e um melhor amigo. Sobriedade mental pouco tem a ver falsidade ou falta de caráter. Nunca fujo dos meus problemas, nunca me escondo do tangível. Só falo as coisas certas, nas horas certas e na maioria das vezes as coisas erradas nas horas erradas...

Dentro de cada um existe a liberdade de escolher o que se quer ser, às vezes uma das faces da moral ultrapassa a outra, liberando atitudes misericordiosas ao extremo ou miseravelmente insensíveis.


Lembrando que conceitos são mutáveis... A mesma lei de atentado ao pudor que condenava mulheres de maiô à beira da piscina, permite
topless hoje.

A maior decepção numa pessoa, definitivamente, é o que pode sair pela sua boca. É terrível ouvir grandes afirmações sendo expelidas na sua cara de forma honesta e necessária, do mesmo jeito que rostinhos bonitinhos falando coisas de baixo calão. O que importa agora?
Só tem inimigos aqueles iletrados que ostentam no braço o poder que deveriam ter na retórica.

Para finalizar, sim... eu sou imprevisível e eu consigo dizer coisas bem mais profundas e mais marcantes com metade do esforço que normalmente se necessitaria. Sim, eu digo a verdade, sempre. Sim, eu uso da minha cara de bom moço pra me sair melhor. Sim, eu sou maquiavélico. Não, eu não tenho medo disso, porque eu sempre falo a verdade. É sempre bom ter cuidado com quem se joga, bons jogadores conhecem seus adversários, suas limitações. E o que importa agora?

Ame-o ou deixe-o, de modo a ser chamado de egoísta.

- Janny it's a mine, get out there.
- No, it's mine!!

Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

cabelos alisados duas décadas

Dicotomizado por entre as frestas da cortina vê um céu carregado, uma alta umidade e chuva, muita chuva.
Não quer acordar para mais aquele dia de ócio-non-criativo. A vida tem sido chata e repetitiva, na verdade a vida de todos o é, quem não tem rotina, ou não vive ou mente.

Viver é diferente de sobreviver, assim como determinante é diferente de determinista. Em sua cabeça palavras ao acaso vem lhe trazendo recordações de um préterito que nunca existiu, há uma falha cronológica. Não é possivel dizer que um déjà vu é uma memória, ou é? O lapso temporal a qual se refere, pouco tem a ver com o relógio. É porque contato físico tomou um novo sentido a partir daquele momento, e ai está o lapso. Deslapsado eu diria.
Num dia tão inusual, já choveu e fez sol três vezes; sol de solstício, chuva torrencial. Na chuva tem-se o guarda-chuva, no sol o guarda-sol, pro vento o cata-vento; pro dia avareza, pra tarde luxuria, pra noite ira.
Da água veio a vida, mas a água a tomou de volta. Pobre arquiteto do tempo, cansado de tanta monotonia, resolveu matar uma centena, diversão irônica e miserável. Arquitetos são sem graça. E deus, quedê? Estava ele imóvel a te olhar se afogar ou tão cruel foi que nem um punhado de terra tirou e te sufocou? Pois é, os que a água levou, se foram. Aqueles que água lavou, ficaram sem. E aqueles que os assistem, afogam seu ego numa taça de melancolia à beira-rio.
O céu, eminentemente úmido, continua a ostentar sua superioridade sobre o ser terreno que abre a cortina e o vê chover. E deus, quedê? Está lá sentado, com os pés na água, molhando seus donuts no resto da lama do rio meândrico que assola os que dele necessitam.

Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

Meg y Yo part II - Whair and Friends


Logo após pensar a fundo, Yo desistiu. Jogou pro alto as verdades que tanto almejava.

Pensou e repensou, palavras dependem da interpretação que lhes é dada. Para alguns palavras podem ser ditas e des-ditas com grande facilidade, para outros, aqueles que entendem da epistemologia, palavras não são apagadas, como na areia quando a água homogeniza a diferença.

Podemos considerar dois novos fatores nessa estória, Whair e Friends.

Yo é o peão, a frente de batalha, a fragilidade em unidade, a força em coletivo. Friends é o rei, o game over. Whair é o cavalo, seus movimentos refazem a dinâmica do jogo. Meg era a rainha, liberdade e poder, mas está fora do jogo agora, teve crises de cãibra.

Yo - persistente jogador - desiste somente no final. De fato é o final. Não há morte com dignidade, somente vida com dignidade. E já não espera mais, porque não há o que esperar. A idéia que Yo tinha de Meg dissipou-se no ar, assim, de repente. Não que Yo tenha um botão liga/desliga para os sentimentos, mas o corpo salvo a parte quando está doente, não tenta suicídio. Então todo melodrama sincero Yo - Meg, acaba. Outros problemas surgiram nesse meio tempo, Yo adora resolvê-los.

Friends tem um papel fundamental nisso, era totalmente contra a situação, foi quem salvou Yo de burradas ainda maiores, da chuva, do ócio degenerativo, de um gostar platônico.

Abre aspas, gostar platônico, fecha aspas, Yo sabe que de platônico não tinha nada.

Whair é tão prestativo, tão especial, é a perfeição numa escala regional. Whair é a incógnita, o medo, o outro problema. Será resolvido em breve - afirma Yo.

Sobre a conclusão: Vá à guerra, com quem sabe lutar. Vencer nem sempre significa vencer, e um adversário no chão, nem sempre é um adversário morto. - a palavra na frase deveria ser "inimigo", mas só tem inimigos aqueles iletrados que ostentam no braço o poder que deveriam ter na retórica.

Yo preza Friends que roga pelo silêncio de Yo. Friends instiga o interesse à Whair. Whair é um meio fácil de emergir das Marianas. Meg vai continuar a ser Meg, até que parem a produção.

Yo vai errar conscientemente de novo. Vai errar em prol do seu orgulho e da sua liberdade, afinal palavras não são apagadas com as ondas do mar.

Sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

dead generation


A música repete inúmeras vezes. Morde o lábio inferior, o aparelho o corta e faz sangrar. Os movimentos ritmados não cessam nem com a dor. A cabeça está fora de si mesma. Aquele escuro que pisca e pisca. Os olhos já doendo continuam fechados.

Pura hipocrisia. Só quer ficar mais tempo fora da sua realidade.

Realidade. Fora de si. - Não consegue encarar seus problemas de frente, sempre foge, é mais fácil. Esconde-se atrás dos vidros escuros e do estereótipo dos de bem. Mas de fato é um cruel e pobre filho-de-nós-mesmos que aparece pelos cantos e vai tomando o centro até que se liberta numa onipresença momentânea. Embora o álcool seja um radical livre, quem se importa? - É o preço que se paga por não ser cool o suficiente.

Termina por olhar o relogio, sem enteder os ponteiros. Vai pra casa e logo acorda com dor de cabeça.

Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Meg y Yo.


Aquela voz com sotaque sergipano, enche-me os ouvidos, fecha-me os olhos. Estou cansado. Não um cansaço físico, mas um cansaço mental, um cansaço de ingratidão.

Declinei ao espelho e a forma de se fazer bonito porque acredito que ainda há alguma coisa. Eu erro - disse Yo - todo os dias. Errar faz parte do meu genótipo. Mal sabia ele que alguns erros são pra sempre.

Não se importa com os outros, Meg é sua objeção, seus porquês, não mais sua razão, mas seu objetivo.

Yo não vê em Meg a beleza física, a beleza intelectual, o sex appeal, Yo vê a possibilidade.
De mãos dadas consigo mesmo, Yo espera. A Meg errada para o Yo errado, ou as palavras erradas de Meg para os ouvidos errados de Yo. No fundo resplandece, ao som de so happy together - beatles. A primeira vista o ódio.

O sonho feijão-com-arroz é meramente temporal. Questão de paisagem.

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

politicamente incorreto


Feio. Fome... Dor.

Nasce a cria, a prole, um animal. Mais um fadado ao fracasso...

Certamente que não era o primogênito, nem haveria possibilidade de ser. Mães que literalmente vivem como animais já tem mais de uma dezena de criaturas aos trinta anos. O cheiro ferroso de sangue entranha as paredes já fétidas do barraco. A parte plasmática do dejeto escorre por entre as espaçadas e podres madeiras do assoalho. O pai não estava presente; nunca estava, chegava em casa aos trancos e barrancos com o sexo para fora das calças e só isso fazia. Tinha mais álcool do que sangue nas veias, era quase um automóvel movido à combustão. A parideira não entendia como ele conseguia dinheiro para estar sempre bêbado se nunca na vida, nem se quer uma vez, teve a carteira assinada. O monstrinho chorou.

Sozinha, a pobre, juntou o filho que estava aos berros no quente e úmido chão, enrolou-o num pano e cortou o cordão umbilical com uma tesoura enferrujada e sem fio. Fez as honras de retirar a placenta e se contentar com a dor e o sangue. Ela grita às filhas que entrassem a casa para ajuda-la. Aquelas meninas, também fadadas à prostituição, feias, imundas, as quais o ranho já faz parte do fenótipo, vem sorrindo e contentes com o mais novo, mas nunca o último, "mano".

A infeliz criança é recepcionada da forma mais carismática e amável pelas faxineirinhas. A fala errada, o fedor, o calor, a falta do que comer... Eram todas magras, muito magras. A mãe, já recuperada tira as tetas para fora e dá pela primeiras vez, leite da periferia para o recém chegado. Ele mama.

...

Ele cresce. É diferente das treze irmãs. Primeiro porque é homem, segundo porque o pai não bate nele. Ele é prepotente, arrogante, machista e hipócrita. É feio. É ignorante. É sujo. Ele não é só pobre monetariamente mas também de espírito e de cultura. Não sabe ler. Mas conhece os becos e ruelas do morro como ninguém. De lá nunca saiu, vive num mundo paralelo. Nunca se esmerou, tem medo. Caga-se de medo.

O fato dele não ter estudado parece ser culpa da ineficiência do estado que não o obrigou. Blasfêmia. Ele foi obrigado, mas repugnava a escola. Batia nos professores, terminou por matar um e nunca mais numa escola pôs os encardidos pés.
Aos dezessete anos encontrou uma gaja para se aninhar. O sonho do enxoval. Tijolo por tijolo, avante à laje. Tamanha ignorância é que no calor desse país tropical fez as janelas minúsculas, quem sabe pretendia construir a primeira sauna da favela.

Agora, aos 18, era um corno, O todo poderoso do tráfico. Sua gaja era uma lady, miss favela. Os peitos caídos, a barriga flácida, mas a bunda, ah a bunda fazia a felicidade da metade dos "grandes coisas" do mirante favelar. É irônico pensar que uma mulher tem coragem de botar pares de chifres na cabeça do homem que manda no lugar. Era ela louca. Louca varrida. Louca de internar. Nunca falava nada com nada, só ria, não como aquelas pobres coitadas que só põem a cabeça pra fora da janela para exibir suas janelas e ir à missa ao domingo, ri de sem vergonha, de imoral que é.

Os filhos do casal, como é de se esperar tem o ranho grudado na cara. Perpetuam a beleza da ignorância e da submissão. Também não frequentavam a escola. Coitados.

Aos 20, o patrãozinho já era um ancião. De favela, cocaína e boceta era PhD, mas ainda não sabia ler. A chuva de balas perdidas, iluminava a noite do casal, a gaja pelada levanta-se para calar a boca de uma das crias que insiste em chorar. Um forte estrondo destrói metade do reboco que segurava a porta na parede. O vagabundo retira a arma de baixo do travesseiro e alveja a sombra até clarea-la. Um único tiro vem de trás da sombra clara e acerta a testa daquele que um dia foi um monstrinho amamentado. Faz-se silêncio no ambiente, nenhum dos ranhentinhos chora. A gaja, ainda pelada, cobre os peitos e vai olhar quem matou seu maridinho.

Na moral da favela, o jusnaturalismo impera. Ele matou, ele reina. A vadiazinha, desdentada e magricela, já apaixonada pelo assassino, ajuda a levar o corpo pra fora de casa. Trocou o lençol e se deitou com o novo pai das crianças. Como toda matriz parideira, já engravidou de primeira.

O sol nasceu, e na favela enxerga-se o sol de um ângulo bem melhor do que aqueles que pagam IPTU. O cheiro do corpo apodrecendo na porta de casa anunciava à vizinhança que o "bom da boca" tinha ido pro fundo da vala. Dois camaradinhas, que subiam coisas com o carrinho-de-mão, levam, por 5 pila, o corpo pra baixo. bora embora, faveladinho.

O morto que nunca tinha saído da comunidade, agora era cortejado, como um rei, para fora. Dalí em diante o caminhão do lixo que se encarregue.

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Banana x Pinhão

Um quilo de pinhão vale mais que um quilo de banana!

Falo com conhecimento de causa, banana é pseudobaga.
Banana é facinha, dá até na areia da praia.
Selvagem e trivial, se agrada com qualquer rabo de saia.
Filho da bananeira, banana é.

Já o pinhão, enigmático e sistemático não se vende no mercadão
Progenitor da majestosa araucária, é ele a esperança da nação.
Da pinha acolá, vem esse pequeno gigante pra cá.
Cai, abre, liberta-se e prospera.

E a banana, pobrezinha, amarela e mirradinha
É do povão; o pão com ovo da população.
Na fruteira, logo apodrece e termina alvoroçada.
Banana que era fruta, agora é o lar da bicharada.

O pinhão é forte assim, acanhado mas teimoso
Não tem medo da geada, se¹ enaltece corajoso.
Quando se depara com um desafio, logo sobe do chão
Não fique perto e tenha medo, pois não sou um bananão.

Das frutas e sementes, vida longa às árvores mais altas; pena que nem árvore bananeira é.

Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

Et cetera e tal.


Esvaiu-se, dissipou-se. O que era colorido agora está quebrado. O que respirava, oxidou. O que se mexia, parou e o que amava, odiou.

A dinâmica dessas relações é uma questão extremamente sensível e variável, que depende única e exclusivamente dos sujeitos nela envolvidos. O mundo a volta sensibiliza os seres que se adaptam e se adequam. Os controladores de massa, de fato, definem nosso entorno. Palavras são estáticas, nós que as interpretamos de maneiras de diferentes.

E vem sendo assim há tempos. Gostar, variou. Beleza, variou. Nós, variou. Até amar variou.

Certo dia estavam lado a lado, aqueles dois, eles não sabiam ainda, mas em breve viriam a ser uma paixão, uma reflexão, uma unidade, um amor. Ligados às suas rotinas, nem tiveram tempo de notar quem estava ao lado, um com os afazeres, outro com os desfazeres. Eram contrastantes, aqueles das relações ditas normais. Ela e ele. Ele era mais alto, ela, mais baixa. Ela loira, ele moreno. Ela despreocupada, ele também. Chegaram a pé, de tenis, quase no mesmo horário, por portas diferentes. Esperam o elevador, de calça jeans... Os dedos se chocam no botão do sexto andar, ela o nota, ele a vê. Sorrizinho amarelo de elevador e ela sem pensar exclama, desculpa. Ele, treinado pelas noitadas em claro, xavecando meio mundo, faz uma cara de interesse e começa um quase monólogo. Em alguns dias eles se divertem juntos, em semanas se gostam, em meses se amam e em anos estarão casados. Por uma trivialidade se separam, ela sempre odiou que ele não conseguia dormir com lençol de cima, ele a odiava monopolizando a tv no GNT.

Vêem-se livres. Mas o que é a liberdade?

À procura d'outro amor...
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PS: Et cetera: do latim - "e os restantes".

Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

peões


Lados opostos da calçada.
Rostos que se encaram, uns vão, outros voltam. Aqueles que voltam, ora já haviam ido.
Nunca estão muito distantes, apenas brancas faixas e a institucionalização do sinal vermelho para pedestres os separam.

Como autistas aguardam o fluxo cessar pelo sinal verde. Abre.
O coração pára. O tempo pára. O mundo pára. O primeiro passo transgride a barreira do silêncio e da imobilidade, como uma hierarquia de apressados aqueles avançam na frente e seguem uma trajetória nenhum pouco retilínea com dois únicos obejtivos, chegar logo ao outro lado sem esbarrar em nenhum outro.

O medo aflige os outros a volta, há alguns que nem arriscam chegar perto. Sabe-se de muitos que morrem diariamente por se aventurar pelas listradas da vida.

Passo a passo aproximam-se da margem, logo sairão dali e voltarão a viver. Fora desse território não há o que analisar. A intermitência das luzes continua viva a espera do retorno daqueles que ora se arriscaram a cruza-las. E o regresso, ah o regresso. De volta ao ponto de partida.

Sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

lights.



Dá a partida.
Mostra-lhe água, óleo, temperatura, cinto de segurança e freio de mão.
...
Está na rua, atento aos postes de luz e as tartarugas.
Todas as luzes que compõem o grande painel, estão acesas.
Luz baixa.
Aquela música tão favorita toca no rádio, que se expressa alternando correntes elétricas as quais sinalizam os led's azuis.
Dá seta para esquerda, adentra à avenida.
Vagueia pelas asfaltadas, cruzando várias faixas de segurança e semáfaros.
O pôr-do-sol a estibordo.
Toma a pista da esquerda e já sinaliza à direita para entrar na auto-estrada.
Encaixa-se perfeitamente, naquele frénésie de vai-e-vem.
Logo na frente alertas piscam evidenciando uma parada súbita, pára.
Lembrou-se, é hora de congestionamento.
Começa a dança das luzes. Amarelas e vermelhas piscam suplementares.
Nada ritmadas e nenhum pouco interessantes essas luzes piscam de forma aleatória e às vezes descontentes.
As da direita sinalizam para esquerda, as da esquerda para a direita.
Verdes são instigadoras, vermelhas regressivas, amarelas transgressivas, brancas inconstitucionais.
São uma poluição visual, perde-se o referencial. Sozinhas.
Nem as luzes sabem o que daria se somassem todas as luzes.
Nacionais e importadas essas são convenções de uma movimentação segura.
À medida que o movimento vai diminuindo as luzes vão ficando menos agressivas e fluem.
Ainda por hora uma ou outra solitária mostra sua vontade de transgredir a linha reta...
O destino final, antecedido pelo ballet das coloridinhas, termina por desliga-las.
Não se faz mais necessário a iluminação.
Mas elas estão lá, latentes, à espera da próxima emoção, preparadas pro segundo ato.