
Feio. Fome... Dor.
Nasce a cria, a prole, um animal. Mais um fadado ao fracasso...
Certamente que não era o primogênito, nem haveria possibilidade de ser. Mães que literalmente vivem como animais já tem mais de uma dezena de criaturas aos trinta anos. O cheiro ferroso de sangue entranha as paredes já fétidas do barraco. A parte plasmática do dejeto escorre por entre as espaçadas e podres madeiras do assoalho. O pai não estava presente; nunca estava, chegava em casa aos trancos e barrancos com o sexo para fora das calças e só isso fazia. Tinha mais álcool do que sangue nas veias, era quase um automóvel movido à combustão. A parideira não entendia como ele conseguia dinheiro para estar sempre bêbado se nunca na vida, nem se quer uma vez, teve a carteira assinada. O monstrinho chorou.
Sozinha, a pobre, juntou o filho que estava aos berros no quente e úmido chão, enrolou-o num pano e cortou o cordão umbilical com uma tesoura enferrujada e sem fio. Fez as honras de retirar a placenta e se contentar com a dor e o sangue. Ela grita às filhas que entrassem a casa para ajuda-la. Aquelas meninas, também fadadas à prostituição, feias, imundas, as quais o ranho já faz parte do fenótipo, vem sorrindo e contentes com o mais novo, mas nunca o último, "mano".
A infeliz criança é recepcionada da forma mais carismática e amável pelas faxineirinhas. A fala errada, o fedor, o calor, a falta do que comer... Eram todas magras, muito magras. A mãe, já recuperada tira as tetas para fora e dá pela primeiras vez, leite da periferia para o recém chegado. Ele mama.
...
Ele cresce. É diferente das treze irmãs. Primeiro porque é homem, segundo porque o pai não bate nele. Ele é prepotente, arrogante, machista e hipócrita. É feio. É ignorante. É sujo. Ele não é só pobre monetariamente mas também de espírito e de cultura. Não sabe ler. Mas conhece os becos e ruelas do morro como ninguém. De lá nunca saiu, vive num mundo paralelo. Nunca se esmerou, tem medo. Caga-se de medo.
O fato dele não ter estudado parece ser culpa da ineficiência do estado que não o obrigou. Blasfêmia. Ele foi obrigado, mas repugnava a escola. Batia nos professores, terminou por matar um e nunca mais numa escola pôs os encardidos pés.
Aos dezessete anos encontrou uma gaja para se aninhar. O sonho do enxoval. Tijolo por tijolo, avante à laje. Tamanha ignorância é que no calor desse país tropical fez as janelas minúsculas, quem sabe pretendia construir a primeira sauna da favela.
Agora, aos 18, era um corno, O todo poderoso do tráfico. Sua gaja era uma lady, miss favela. Os peitos caídos, a barriga flácida, mas a bunda, ah a bunda fazia a felicidade da metade dos "grandes coisas" do mirante favelar. É irônico pensar que uma mulher tem coragem de botar pares de chifres na cabeça do homem que manda no lugar. Era ela louca. Louca varrida. Louca de internar. Nunca falava nada com nada, só ria, não como aquelas pobres coitadas que só põem a cabeça pra fora da janela para exibir suas janelas e ir à missa ao domingo, ri de sem vergonha, de imoral que é.
Os filhos do casal, como é de se esperar tem o ranho grudado na cara. Perpetuam a beleza da ignorância e da submissão. Também não frequentavam a escola. Coitados.
Aos 20, o patrãozinho já era um ancião. De favela, cocaína e boceta era PhD, mas ainda não sabia ler. A chuva de balas perdidas, iluminava a noite do casal, a gaja pelada levanta-se para calar a boca de uma das crias que insiste em chorar. Um forte estrondo destrói metade do reboco que segurava a porta na parede. O vagabundo retira a arma de baixo do travesseiro e alveja a sombra até clarea-la. Um único tiro vem de trás da sombra clara e acerta a testa daquele que um dia foi um monstrinho amamentado. Faz-se silêncio no ambiente, nenhum dos ranhentinhos chora. A gaja, ainda pelada, cobre os peitos e vai olhar quem matou seu maridinho.
Na moral da favela, o jusnaturalismo impera. Ele matou, ele reina. A vadiazinha, desdentada e magricela, já apaixonada pelo assassino, ajuda a levar o corpo pra fora de casa. Trocou o lençol e se deitou com o novo pai das crianças. Como toda matriz parideira, já engravidou de primeira.
O sol nasceu, e na favela enxerga-se o sol de um ângulo bem melhor do que aqueles que pagam IPTU. O cheiro do corpo apodrecendo na porta de casa anunciava à vizinhança que o "bom da boca" tinha ido pro fundo da vala. Dois camaradinhas, que subiam coisas com o carrinho-de-mão, levam, por 5 pila, o corpo pra baixo. bora embora, faveladinho.
O morto que nunca tinha saído da comunidade, agora era cortejado, como um rei, para fora. Dalí em diante o caminhão do lixo que se encarregue.